19 de janeiro de 2014

Sobre a geração nem-nem e até os rolezinhos.

Vou pegar o gancho dos rolezinhos para falar de algo relacionado, mas não restrito a eles, abrangendo também a tal geração "nem-nem" - nem estuda, nem trabalha - e traçar um comparativo com a minha juventude. Não penso que esse pessoal que organiza os "rolezinho" estão completamente errados. Todos nós já fizemos rolezinho, mas em sua forma crua. O que vem depois que o rolezinho toma corpo é que é o problema.

Sempre fui a favor da mulecada brincar, sair na rua, se divertir - gazetear como já ouvi - mas isso tem um limite que é o respeito pelos outros.

Mas ocorre que estão estendendo e generalizando a questão. Tem gente que acha desculpas nisso - falta isso, falta aquilo. Realmente falta, mas os melhores momentos de minha juventude ocorreram nas ruas, muitos até, na frente da minha casa.

Outros acham oportunidades de explorar isso politicamente - são pretos, são probres, são da periferia, etc. Realmente são, mas a maioria dos jovens que frequentam os shoppings - como o Itaquera e o Tatuapé - também são!

Obs: Aqui ainda me espanta outro ponto: Se as pessoas pobres são discriminadas, o branco pobre é mais discriminado ainda!

Ontem eu estava no Shopping Anália Franco (um Shopping mais requintado, mas nem tanto) e me coçava para não tirar foto da mulecada que estava lá - como sempre estiveram - não tinha brancos e negros, pobres ou não, todos juntos, sem NENHUM problema.

Um desses rapazes do rolezinho disseram gastar todo o salário (não me recordo, mas era algo como R$400,00) em roupas, bonés e etc. Esse é outro ponto que me chama muito a atenção - e é um ponto que eu pego mal com o funk e outros tipos - é esse incentivo ao consumo. Fazemos isso logo ao mencionar "pobre", "uns com muito, outros com tão pouco", "distribuição de renda", estamos falando de posses, de quem tem o que e isso é realmente importante? O problema não é o cara ser pobre ou rico, acho que o grande problema é a desigualdade social, a falta de estrutura.

Esse conceito faz parecer que precisamos ter um iPhone, uma TV gigante e coisas do tipo. Não é isso, o que todo mundo tem que ter é condição social. Água encanada, esgoto tratado, qualidade de vida, transporte, acesso a serviços de saúde, roupas sim, comida sim, acesso a lazer de qualidade ... resumindo, dignidade e respeito! Um iPhone não traz isso para ninguém.

Lembro das fotos de quando o meu pai era criança e morava em um cortiço, ele sempre me falou que meu avô o levava para trabalhar desde cedo e ele sempre estudou muito e começou a trabalhar desde cedo e partindo daí criou 3 filhos. Lembro quando ele tinha um Corcel azul e o esforço que ele fazia para nos dar boa condição de vida e isso quer dizer roupas, uma casa alugada, comida e nada luxuoso.

Meu pai sabia quais eram as prioridades em 10 anos talvez pudesse trocar o carro, presentes só nas data. Nunca foi de comprar coisas para ele, muito menos novidades. Minha mãe costurava muito de suas roupas e cortava nossos cabelos.Certa vez eu pedi algo a ele e quando eu cobrei eu disse "mas você prometeu!" eis que ele me respondeu "então estou desprometendo". Vendia as licenças a que tinha direito. Mas sempre nos incentivou a trabalhar e estudar.

Foi seguindo assim que conseguiu pagar escola e depois a faculdade para todos nós. Trabalhou muito, mas nunca deixou de nos ensinar, educar e corrigir. Meus pais sempre fizeram questão de ser o mais íntegro que pode, virava horas nos ensinando. Erraram, sim, com certeza em muitos momentos e até os seus erros nos ensinavam muito, com os erros eu via o que eu queria para mim e o que eu não queria, então não é porque eles faziam algo que eu faria também, a decisão é nossa.

Certa noite, meus pais estavam brigando com minha irmã na sala da casa em que morávamos, eu e meu irmão corremos para lá, só para assistir. Nos ferramos, entramos na dança. Outra vez eu e meu irmão estávamos brigando e meu pai deu uma lição nos dois, aquilo me chateou muito, por obrigar meu pai a passar por aquilo, como no casa em que, com algo em torno de 15 anos irritou muito minha mãe, a ponto dela me dar um tapa. Claro que nem senti o taipa, mas eu, um marmanjo com 15 anos levar minha mãe a aquele ponto me fez chorar copiosamente.

Quando minha irmã engravidou aos 15 anos, a primeira coisa que fez foi arrumar um emprego para mim, então com 14 anos eu passei a, ao sair da escola, atravessar a cidade em que eu morava (30 mins de caminhada)  para um escritório onde certamente eu aprendi muito e cresci - foi um divisor de águas sem dúvidas - mas também nunca deixei de me divertir. Desde então eu sempre trabalhei, mas sempre tive tempo para brincar com meus amigos na rua, em casa, na escola, onde fosse.

Outra coisa que aconteceu foi que meu pai comprou um terreno para construir uma casa para minha irmã. Todo final de semana eu, meu irmão (12 anos) e meu pai iamos as 07h da manhã para esse terreno construir a casa que seria da minha irmã.

Nenhum de nós cresceu revoltado, muito pelo contrário, todos os dias eu penso como eu posso contribuir para um bairro melhor, uma cidade melhor, um país melhor. uma sociedade melhor e uma humanidade melhor.

Meus país nunca impuseram filosofias, religiões ou ideologias, ao invés disso, nos ensinaram a aprender e pensar, a participar e cobrar. Ensinaram o certo e o  errado. Desafios e barreiras existem e talvez para mim seja mais fácil falar, meu pai talvez possa enxergar isso diferente, pois eu cresci sobre os seus ombros, mas mesmo pensando a partir do ponto de vista dele, vejo muito desses argumentos - de que falta isso, de que a elite ou o governo aquilo - apenas como muletas.

Sou a favor de o adolescente ter direito a trabalhar e tem que estudar, acho que os governos tem a obrigação de fornecer estrutura para todos e sei que ainda falta muito - inclusive trabalho - mas isso nunca foi abundante nem para o meu pai, nem para mim. É necessário suar e buscar, usar a energia para nos desenvolvermos.

Não é o que você tem, mas o que você faz e me parece que ainda tem gente que está preso nisso. Eu estou escrevendo isso na esperança de que possa mostrar um caminho a alguém, nunca foi fácil, mas se quer mudar é assim que será.

P.s. depois de escrever esse texto, cheguei a conclusão que o que esse pessoal procura e precisa, não está nas ruas - nem nos shoppings - está em casa, não necessariamente a casa, mas onde seja um lar.

por: Conrado Tramontini

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