21 de abril de 2014

Você crê no absurdo?

Eu não havia planejado escrever nada relacionado a religião, mas ao rever uma foto que fiz, de  um casal de amigos, que a muito tempo se dedicam de alguma forma a sua fé, o que inclusive levou os dois a se encontrar me senti compelido a falar sobre a sensação que tive no momento daquela foto, e em outros momentos.

A foto foi feita na capela de São Benedito e Sant´Anna, em Maresias; estávamos de férias na cidade e os dois estavam buscando uma capela para o Domingo e quando a encontramos, entraram para uma breve oração.

Aquela cena reforçou uma reflexão que tenho frequentemente, de que pessoas muito bem cientes e orientadas que são dedicadas a sua fé por uma razão pessoal, uma escolha consciente.
Dentre os vários momentos em que tive essa percepção, está o momento em que conversei com o pároco da igreja onde casei e as imagens do conclave para a escolha do papa, onde observei pessoas em diferentes situações dentro da igreja católica e que dedicam muito do seu tempo, de sua vida, a sua fé.

O escritor de "A vida de Pi" narra algo semelhante no livro, que inclusive o transcreve melhor do que eu conseguirei fazer aqui.

Hoje é fácil encontrar argumentos de que a fé, as crenças, deus ou deuses são apenas invenções humanas para que pessoas tenham poder sobre os outros, de que aquele que crê é um tolo, e de que o fato de a ciência é uma antítese a fé.

Mas quem coloca esses argumentos normalmente o faz de forma pública, como uma afirmação a si mesmo e a um público de sua sabedoria, mas de forma vazia, imposta e até infantil.

O contrário também é verdade, existem muitas pessoas professando sua fé aos quatro ventos, a impondo sobre os demais que, segundo a pessoa, estão fadados a danação eterna por não se comportar exatamente como ela.

Normalmente essas duas atitudes são as que ganham destaque pela sua voracidade, mas me parecem - ambas - alheias a realidade. Jack London escreveu em "Lobo do Mar" sobre a vida inspirar idéias santas em alguns homens, que faz com que outros vejam Deus, ou o inventem quando não podem vê-lo.
Isso tem acontecido com muita frequência para as pessoas que são muito pressionadas a encontrar um deus.

Eu fui criado com base no catolicismo, mas nada nunca me foi imposto, meu pai se diz uma pessoa cética e conhece muito sobre ciência e tecnologia enquanto minha mãe expõe sua fé com mais frequência, mas nenhum dos dois nunca nos impôs nada e nos deixou livres em nossa busca.

Para mim, a ciência e religião não são universos que se anulam, mas que coexistem de forma paralela. Cada um tem suas propriedades e características, quase que complementares. A ciência não vai explicar o espiritual, pois se houvesse explicação, seria ciência. Uma frase "Creio porque é absurdo", atribuída a Tertuliano, explica muito bem isso.

Eu ainda não sei definir no que creio e como creio, mas saber de coisas que a Lua - que foi gerada quando nosso planeta estava se formando, por uma colisão de um asteroide com a Terra, empurrado em um momento muito particular do nosso sistema Solar - é muito importante para manter a Terra girando de forma precisa e regular as marés, permitindo que assim exista vida, o Sol nascer dia após dia para nos aquecer, me parecem um milagre muito maior do que a maioria das pessoas esperam ver, para crer, e me trazem a sensação de uma orquestração muito maior do que o acaso possa fazer, e enxergar isso como uma constatação pessoal, me parece muito mais real e espiritual do que muitas pessoas tentam impor ou anular.

Eu ainda não sei no que creio, mas acredito nas ações tão pessoais e privadas como as de um casal de amigos, fazendo uma breve oração em uma igrejinha centenária a beira da praia em um passeio de domingo.

por: Conrado Tramontini

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